Mostrar mensagens com a etiqueta Nobel. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Nobel. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 4 de março de 2015

Estrela Errante

Título: Estrela Errante
Autor: J. M. G. Le Clézio
Editora: Dom Quixote

Sinopse:
Esther descobre o que pode significar ser judia em tempo de guerra: após uma adolescência serena, vai conhecer o medo, a humilhação, a fuga pelas montanhas e a morte do pai.
Terminada a guerra, Esther parte para o jovem estado de Israel. Mas a Terra Prometida não lhe vai proporcionar a paz: à chegada terá um encontro com Nejma, que deixa o seu país com as colunas de palestinianos rumo aos campos de refugiados.
Esther e Nejma, a judia e a palestiniana, nunca mais deixarão de pensar uma na outra.
Estrela Errante é a descrição de uma viagem rumo à consciência de si mesmo.
Um romance onde Le Clézio glorifica as mulheres e denuncia o absurdo da guerra.

Opinião:
"Estrela Errante" é mais um livro sobre a Segunda Guerra Mundial, mas "Estrela Errante" é muito mais do que apenas mais um livro sobre a Segunda Guerra Mundial. Não entram balas neste livro, nem estratégias militares, motivações políticas ou tudo o resto que costuma preencher as páginas dos romances sobre esta Guerra.
"Estrela Errante" é um livro sobre povos, sobre judeus e palestinianos, mas acima de tudo sobre o povo humano. 
As protagonistas, Esther e Nejma, são as faces, respetivamente do povo judeu e palestiniano. São empurradas através da Terra, deixando para trás lares e procurando um lugar onde possam apenas voltar a ser crianças. São os seus olhos que nos mostram o quão negro foi este período para milhões de pessoas. Olhos inocentes, que não compreendem bem o que se passa, mas que acabam por nos mostrar uma compreensão bem mais clara e abrangente do que a dos adultos. 
Uma escrita fluida, realista, que se impregna no leitor, e deixa gravadas as palavras como hieróglifos. 

É efectivamente uma obra-prima e uma janela aberta para a restante obra de Le Clézio.

sábado, 13 de dezembro de 2014

Os Anões

Título: Os Anões
Autor: Harold Pinter
Editora: Dom Quixote

Sinopse:
O único romance de Harold Pinter, Prémio Nobel de Literatura 2005.
Os Anões é o único romance que Harold Pinter escreveu durante a sua longa e notável carreira, coroada em 2005 com a atribuição do Prémio Nobel de Literatura. Originalmente concluído em começos da década de 1950, depois revisto em 1989, o livro descreve as vidas e preocupações de quatro jovens londrinos na Inglaterra do pós-guerra.
Através da evolução, tumultuosa e destrutiva da sua amizade, Pinter explora o modo como as vidas comuns são moldadas pelas limitações e fronteiras da sexualidade, da intimidade e da moralidade, ao mesmo tempo que põe a nu as profundas verdades existentes em acontecimentos aparentemente correntes.
Divertido, vivo, e perturbante, Os Anões é um romance escrito num estilo brilhante por um escritor cuja imaginação marcou as nossas vidas e o nosso tempo.

Opinião:
Sempre que o prémio Nobel é atribuído, assistimos a uma corrida à publicação e reedição de todas as obras do laureado. No entanto, recordo-me que quando venceu Harold Pinter, a mediatização foi um pouco diferente, já que o autor foi acima de tudo um dramaturgo, e este "Os Anões" foi o único romance que escreveu.
"Os Anões" é um livro escrito ao estilo de uma peça. Linhas de diálogo sucedem-se páginas a fio, o leitor tem dificuldade em acompanhar qual o interveniente responsável por cada uma das tiradas, mas assiste abismado a todas as interações. A linguagem é maravilhosamente coloquial, e leva a conversa por mudanças súbitas de assunto, mal-entendidos, ideias que se intrometem no fluxo da conversa sem ponto de partida aparente. Cada um dos jovens da história é um afluente a este rio de palavras, e a sua contribuição para a corrente mostra-nos um pouco o que o move por dentro.
Confesso que por vezes a narrativa se torna tão críptica que tive que ler e reler algumas páginas, mas penso que a ideia é mesmo essa: transmitir emoções, mais do que palavras.
A sexualidade atravessa o livro de ponta a ponta e é o fio condutor sublimar de grande parte das conversas. É quase omnipresente, assim como na nossa vida diária, dizem.
Há um sentido de humor refinado por trás de tudo, que nos ajuda a aceitar o lado mais negro de cada uma das personagens. O sarcasmo é sempre uma arma utilizada de forma certeira.

Se me pedirem para contar a história do livro, provavelmente não serei capaz, mas sei que que as emoções transmitidas ficaram bem gravadas, de forma indelével. 

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

As Intermitências da Morte

Título: As Intermitências da Morte
Autor: José Saramago
Editora: Caminho

Sinopse:
«No dia seguinte ninguém morreu.»
Assim começa este romance de José Saramago.
Colocada a hipótese, o autor desenvolve-a em todas as suas consequências, e o leitor é conduzido com mão de mestre numa ampla divagação sobre a vida, a morte, o amor, e o sentido, ou a falta dele, da nossa existência. 

Opinião:
"No dia seguinte ninguém morreu" é provavelmente uma das frases iniciais mais emblemáticas e mais entusiasmantes. É o pressuposto básico virado do avesso, que dá a forma inicial a este romance e que deixa espaço aos pormenores de génio do autor.
As vantagens da ausência da morte parecem múltiplas e infindáveis, mas com alguma reflexão facilmente percebemos que os problemas serão bem mais intermináveis. E é nesses que Saramago se apoia para destruir o idílio da vida eterna, página a página. Nesta primeira parte do livro, não existe um sujeito único, o foco está na comunidade, unida pelo omnisciente narrador. Ouviremos políticos, o Rei, padres, médicos e o povo. Conheceremos os seus pensamentos e facilmente nos vamos identificar com os seus dilemas morais.
O romance entra numa segunda parte, quando a morte passa de ausente a presente e decide voltar a exercer o seu ofício, mas avisando uma semana antes aqueles que vão ser colhidos pela foice. Assim, ninguém se pode queixar que a vida terminou de repente, sem poder fazer isto ou aquilo. A questão é que nem assim as pessoas estão satisfeitas...
Quando um violoncelista escapa das garras da morte, esta decide vestir as mangas, arregaçá-las e misturar-se no nosso dia-a-dia.
Temos, assim, um romance de várias dimensões, de reflexões eternas sobre a morte, a vida, o silêncio, as palavras.
Mais um incontornável romance de um autor cujas palavras escaparam à carta da morte.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Patrick Modiano - Prémio Nobel da Literatura 2015


O escritor francês Patrick Modiano é o vencedor do Prémio Nobel da Literatura 2014, «pela arte memorialística com que evocou os mais enigmáticos destinos humanos e revelou a vida sob a Ocupação».

Patrick Modiano nasceu em Boulogne-Billancourt, nos arredores de Paris, em julho de 1945, e publicou o seu primeiro romance (La Place de l’Étoile) em 1968. Com Rue des boutiques obscures obteve em 1978 o Prémio Goncourt. Em 1972, recebeu o Grande Prémio de Romance da Academia Francesa.
Considerado hoje um dos mais importantes escritores franceses, e autor de uma vasta obra, foi distinguido recentemente com o Grande Prémio Nacional das Letras e com o Prémio Margerite-Duras.


terça-feira, 20 de agosto de 2013

O Homem Duplicado

Título: O Homem Duplicado
Autor: José Saramago
Editora: Caminho

Sinopse:
Tertuliano Máximo Afonso, professor de História no ensino secundário, «vive só e aborrece-se», «esteve casado e não se lembra do que o levou ao matrimónio, divorciou-se e agora não quer nem lembrar-se dos motivos por que se separou», à cadeira de História «vê-a ele desde há muito tempo como uma fadiga sem sentido e um começo sem fim».
Uma noite, em casa, ao rever um filme na televisão, «levantou-se da cadeira, ajoelhou-se diante do televisor, a cara tão perto do ecrã quanto lhe permitia a visão, Sou eu, disse, e outra vez sentiu que se lhe eriçavam os pelos do corpo»...
Depois desta inesperada descoberta, de um homem exactamente igual a si, Tertuliano Máximo Afonso, o que vive só e se aborrece, parte à descoberta desse outro homem. A empolgante história dessa busca, as surpreendentes circunstâncias do encontro, o seu dramático desfecho, constituem o corpo deste novo romance de José Saramago.
O Homem Duplicado é sem dúvida um dos romances mais originais e mais fortes do autor de Memorial do Convento. 

Opinião:
A ideia é simples, ou talvez não: um professor de História descobre que existe um duplicado de si mesmo, um actor de cinema e inicia uma viagem mental de descoberta pessoal antes de se decidir a ir ao encontro do seu duplo. Ou será que ele é que é o duplicado? Aí é que está a questão, qual será o duplicado, qual deles não é verdadeiramente um ser humano "original"?
Como em todos os livros de Saramago, há várias passagens que valem por si mesmas. A que mais me marcou surgiu quando Tertuliano se mascarava para ir procurar o actor e "quanto mais se mascarava, mais se parecia consigo próprio". Acho que nestas breves palavras está o substrato essencial sobre o as questões que o livro levanta, nomeadamente a antiga questão da "máscara" de cada um, a sua personalidade.
Gostava de ter lido "O Homem Duplicado" num curto período de tempo, mas a verdade é que a leitura se foi arrastando por vários dias / semanas e, como a narrativa se desenvolve lentamente, houve períodos de leitura em que sentia que pouco teria avançado.
Isto, até chegar às últimas 50 páginas que devorei num ápice. Toda a sequência final é brilhante, cheia de dramatismo, com um toque de algo que me recordou Twilight Zone, ou Jorge Luís Borges ou mesmo Kafka...

Uma obra bem nas profundezas da pedra (para quem se lembra da metáfora da estátua e da pedra), difícil de chegar ao âmago, mas tornando-se uma experiência intemporal.

domingo, 7 de julho de 2013

A Estátua e a Pedra

Título: A Estátua e a Pedra
Autor: José Saramago
Editora: Caminho

Sinopse:
Um texto em que, de forma clara e fluida, José Saramago traça um percurso simples, sem artifícios e bem-humorado, pelos seus diferentes livros para acabar concluindo que até a O Evangelho segundo Jesus Cristo havia estado descrevendo a estátua e que a partir desse livro, que é fronteira, a sua tentativa foi a de descrever a pedra de que é feita a estátua, fase que se inicia com Ensaio sobre a Cegueira. Tudo isto fica explicado de uma forma clara e o leitor adquire uma nova dimensão sobre os livros de José Saramago que já conhece e um desejo de se aproximar dos que ainda estão por conhecer, revisitados pelo Autor neste texto.

A Estátua e a Pedra apresenta prefácios de Luciana Stegagno Picchio e Giancarlo Depretis e de um epílogo de Fernando Gómez Aguilera e é publicado em edição bilingue. 

Opinião:
Este livro nasceu de uma conferência que Saramago deu na Universidade de Turim, em 1998, no Colóquio Diálogos sobre a Cultura Portuguesa. Na prática é uma descrição simples do percurso literário de José Saramago, contado pelo próprio. A inspiração, as ideias, os contratempos. Tudo contado numa forma calma e bem-disposta. É uma excelente forma de recordar os títulos lidos há muito e de conhecer a obra que ainda falta ler.
A metáfora que dá nome ao livro é brilhante. E faz todo o sentido. A estátua só existe na superfície da pedra, daí que livros como "Memorial do Convento" e "O Evangelho segundo Jesus Cristo", mais históricos, falam da superfície da humanidade. Depois entra na profundidade do Homem, com "Ensaio sobre a Cegueira" e "O Homem Duplicado", por exemplo, onde a narrativa se passa maioritariamente nas consciências dos protagonistas e menos nas suas acções.

Para perceber melhor a obra de Saramago ou apenas para uma hora bem passada, recomendo.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Don Giovanni ou O Dissoluto Absolvido

Titulo: Don Giovanni ou O Dissoluto Absolvido
Autor: José Saramago
Editora: Caminho

Sinopse:
Partindo da ópera de Mozart Don Giovanni ou O Dissoluto Punido em que Don Giovanni é condenado aos infernos por ter seduzido 2065 mulheres, José Saramago, em Don Giovanni ou O Dissoluto Absolvido reanalisa o mito: será Don Giovanni culpado? E o Comendador, e Dona Ana, e Dona Elvira, e Don Octávio? Serão um modelo de virtudes? Onde está a culpa? Onde está a virtude? Onde está a hipocrisia? 

Opinião:
Tive a sorte de assistir a "Don Giovanni" na cidade onde estreou - Praga. Claro que por entre todo o romantismo do cenário, música e canto, as palavras (perceptíveis apenas pelas legendas projectadas num ecrã sobre o palco) ficaram para segundo plano. Agora, tive a sorte de ler uma outra versão da história, escrita por José Saramago, explorando as mesmas personagens da ópera original, mas com o seu toque deliciosamente sarcástico.
O livro (livrete) em si é pequeno, vivendo de breves diálogos, como seria de esperar. Mas é uma excelente oportunidade de apreciar a arte de escrever diálogos que Saramago usa nos seus romances, apesar de apenas separado por vírgulas, a fluidez é sempre surpreendente. 

Um novo olhar sobre uma obra de arte universal. Só lhe falta os violinos...

domingo, 28 de abril de 2013

As Pequenas Memórias

Título: As Pequenas Memórias
Autor: José Saramago
Editora: Caminho

Sinopse:
As Pequenas Memórias é um livro de recordações que abrange o período entre os quatro e os quinze anos da vida de José Saramago. O autor tinha As Pequenas Memórias na cabeça há mais de 20 anos, por isso a altura para o escrever era esta: "Queria que os leitores soubessem de onde saiu o homem que sou".

Opinião:
É um prazer voltar a estes livros de capa amarela, o nome do autor em grande, o título mais pequeno, ilustrando a omnipresença do narrador por todas as obras. Em "As Pequenas Memórias" esse ascendente é ainda maior, já que se tratam de memórias do próprio autor, mantidos através dos anos na sua mente, imortalizadas em papel agora.
É um livro mais desprendido, mantendo o estilo habitual, mas com menos atenção à estética de linguagem do que ao sentimento. Ou sentimentos. Há muitos que se espraiam pelas páginas, mais os que se juntam do próprio leitor, evocando a sua infância. Apesar de a minha estar separada da de Saramago por algumas décadas, consigo encontrar coincidências capazes de comoção, sorrisos e nostalgia. 

Uma leitura agradável, informativa sobre o autor e nostálgica para o leitor, que cabe bem numa cesta para um qualquer piquenique.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Nobel da Literatura 2012 - Mo Yan

Mo Yan, pseudónimo literário de Guan Moye, nasceu a 5 de Março de 1955 em Gaomi, na província de Shandong, China. O seu primeiro romance, Falling Rain On a Spring Night, data de 1981. Em Portugal foi publicado o livro Peito grande, ancas largas, editado pela Ulisseia em 2007.
O próprio diz-se influenciado por escritores como Gabriel Garcia Marquez, Kenzaburo Oe e William Faulkner.
Em 2012 foi distinguido com o Prémio Nobel da Literatura sendo classificado pelo comité do Nobel como um autor "cujo realismo alucinatório funde contos tradicionais, História e contemporaneidade". in Wook.pt


Em Português está publicado apenas:

 

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Todos os Nomes

Título: Todos os Nomes
Autor: José Saramago
Editora: Caminho

Sinopse:
O protagonista é um homem de meia-idade, funcionário inferior do Arquivo do Registo Civil. Este funcionário cultiva a pequena mania de coleccionar notícias de jornais e revistas sobre gente célebre. Um dia reconhece a falta, nas suas colecções, de informações exactas sobre o nascimento (data, naturalidade, nome dos pais, etc.) dessas pessoas. Dedica-se portanto a copiar os respectivos dados das fichas que se encontram no arquivo. Casualmente, a ficha de uma pessoa comum (uma mulher) mistura- se com outras que estás copiando. O súbito contraste entre o que é conhecido e o que é desconhecido faz surgir nele a necessidade de conhecer a vida dessa mulher. Começa assim uma busca, a procura do outro.
Opinião:  
De vez em quando, preciso de voltar à escrita de Saramago. Uma escrita que me preenche os pensamentos com interrogações sobre os mais significantes pormenores ou sobre as mais inocentes palavras. Interrogações que são imediatamente seguidas por respostas, entre vírgulas, e substituídas por novos pensamentos.
Desta feita, acompanhamos a vida do senhor José, única personagem com nome neste "Todos os Nomes". Um senhor normal, calmo, um mar liso à superfície, mas cheio de remoinhos nos seus pensamentos, assim como qualquer homem normal. Esta normalidade é perturbada pelo acto peculiar de coleccionar notícias sobre gente famosa da cidade e acaba por chegar à insanidade quando decide procurar uma mulher, desconhecida, que só tem no Registo da Conservatória, o verbete do nascimento e do divórcio. Será esta busca incompreensível que vamos seguir, com perplexidade e, no final, compreensão.

Dentro da qualidade habitual, cá está Saramago a transformar o mundano em extraordinário.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

O Beco dos Milagres

Título: O Beco dos Milagres
Autor: Naguib Mahfouz
Editora: Contraponto

Sinopse:
A acção de O Beco dos Milagres, um romance de pendor realista, decorre durante a Segunda Guerra Mundial, num beco da grandiosa capital que é, então, o Cairo.

Por este bairro pobre da zona antiga do Cairo, desfilam os protagonistas de pequenas tragédias e aspirações banais imaginados por Mahfouz: a paixão do doce barbeiro Alhilu pela ambiciosa Hamida; a mãe de Hamida, casamenteira, que arranja um bom noivo a Senia Afifi, senhoria de boa parte dos moradores do beco; as fantasias do cinquentão Alwan; a homossexualidade de Quercha, o dono do café; a sabedoria, a religiosidade e o eterno optimismo de Radwan Husseini, entre outros.

Opinião:
Imersos como estamos por literatura americana e europeia, é bom fugir destas fronteiras por vezes e ler algo com um aroma diferente.
Optei por este título egípcio, de um autor vencedor do Prémio Nobel, pois pareceu-me que seria uma boa companhia de viagem nas férias que já lá vão.
O cenário da história é extraordinariamente simples: um beco, com tudo o que de banal têm todas as ruas de grandes cidades, mas também com todos os traços únicos que individualizam estas pequenas aldeias perdidas no interior de metrópoles. Cada habitante do bairro tem traços típicos, excêntricos, que provocam tanto atracção como repulsa. Como pano de fundo, a omnipresente Segunda Guerra Mundial, que acaba por determinar muitas das decisões mais importantes dos personagens.
Sendo uma cultura algo diferente da nossa, a leitura torna-se bastante cativante, pois sentimo-nos a percorrer cada canto e cada casa do beco, com um pormentor tal que quase sentimos os odores que pairam no ar.
Acabam por ser várias histórias que se entrelaçam, com vários finais e muito para o leitor pensar.

Um pequeno tratado das decisões e interacções humanas, ditadas pelas ambições e possibilidades. Um escape refrescante da "ocidentalidade".

domingo, 3 de julho de 2011

História do Cerco de Lisboa

Título: História do Cerco de Lisboa
Autor: José Saramago
Editora: Caminho

Sinopse:
"«Há muito que Raimundo Silva não entrava no castelo. Decidiu-se a ir lá. O autor conta a história de um narrador que conta uma história, entre o real e o imaginário, o passado e o presente, o sim e o não. Num velho prédio do bairro do Castelo, a luta entre o campeão angélico e o campeão demoníaco. Raimundo Silva quer ver a cidade. Os telhados. O Arco Triunfal da Rua Augusta, as ruínas do Carmo. Sobe à muralha do lado de São Vicente. Olha o Campo de Santa Clara. Ali assentou arraiais D. Afonso Henriques e os seus soldados. Raimundo Silva ""sabe por que se recusaram os cruzados a auxiliar os portugueses a cercar e a tomar a cidade, e vai voltar para casa para escrever a ""História do Cerco de Lisboa"". Uma obra em que um revisor lisboeta introduz a palavra ""não"" num texto do século XII sobre a conquista de Lisboa aos mouros pelos cruzados.» (Diário de Notícias, 9 de Outubro de 1998)"

Opinião:
Aqui fica a opinião de mais um livro de José Saramago, em jeito de singela homenagem pela proximidade do aniversário da sua morte...
"História do Cerco de Lisboa" parte, como vários livros de Saramago, de uma ideia surpreendentemente simples: um "sim" por um "não", e todas as possíveis consequências das alterações de uma só palavra na História. Acompanhando os acontecimentos alternativos do Cerco de Lisboa, assistimos a um verdadeiro romance, tendo como protagonista o revisor responsável pela "pequena" alteração.
Apesar de não ser um dos livros mais mediáticos do autor, foi um dos apreciei mais e é um título onde Saramago tem espaço para soltar todas as suas palavras. Com primorosas descrições da vida do século XII e comparações com os nossos tempos, tão simples quanto brilhantes, o lado de Romance Histórico deste livro já vale por si próprio. 
Mas não subestimem a capacidade do autor em contar uma verdadeira história de amor "tardio" (pelas idades envolvidas). Mantendo o seu estilo profundo, que se entrelaça com os nossos próprios pensamentos, Saramago expõe-nos em toda a sua glória a sua ideia de amor, próximo da idade em que escreveu este livro.
Mais do que tudo isto, como se fosse preciso, deparei-me com deliciosas reflexões sobre a nossa língua e a sua evolução, vindas de alguém que a dominou como poucos.

Recheado de tudo o que de melhor o autor tem para oferecer, é perfeito para os que querem experimentar, os que já foram apanhados e todos os que apreciam boa literatura.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

A História Mais Bela do Mundo

Título: A História Mais Bela do Mundo
Autor: Rudyard Kipling
Editora: Publicações Europa-América

Sinopse:
Por vezes restringida ao Livro da Selva e a contos humorísticos que escrevia para os filhos, a obra de Rudyard Kipling, autor galardoado com o Prémio Nobel da Literatura em 1907, é em grande medida desconhecida. Em particular, o considerável corpus de contos e romances nos quais o seu espírito curioso, fazendo jus ao humor inglês, é certeiro.
N’ A História Mais Bela do Mundo, Kipling leva a crer que a inspiração surge dos detalhes mais prosaicos que só o artista pode transcender, que só várias coincidências e contingências dão azo a uma obra de arte e que a arte sublima o real e o maravilhoso ombreia com a ciência. 

Opinião:
Sendo um dos mais versáteis escritores ingleses, Kipling costuma ser esquecido ou recordado apenas pelo "Livro da Selva". Assim sendo, este livro com dois contos do autor, é uma excelente forma de conhecer um pouco mais a sua obra, de forma ligeira e algo divertida.
Os contos que compõem este livro são "A Mais Bela História do Mundo" e "Ao Sabor das Ondas". Há vários pontos em comum entre ambos. Kipling escreve de forma sonhadora e confere os mesmos traços pensativos aos seus protagonistas/narradores. Nos dois contos, só a chegada ao final nos permite apreciar o verdadeiro âmago das ideias do autor, deixando várias eternas questões metafísicas pendentes.
É curiosa a interacção entre as banalidades do dia-a-dia com essas tais questões mais esotéricas, que me custa não expor aqui, mas não quero estragar a surpresa!

Uma pequena janela para a obra de um Prémio Nobel do início do século XX, que deixa vontade de escancarar a porta para os restantes escritos...

domingo, 10 de outubro de 2010

Mario Vargas Llosa Prémio Nobel da Literatura 2010

Mario Vargas Llosa nasceu em 1936, em Arequipa, no Peru. Professor universitário, académico e político, é uma personalidade intelectual de grande vulto e um dos mais importantes escritores da América Latina e do mundo.Da sua vasta obra destacamos A Cidade e os Cães (Prémio Biblioteca Breve, 1962; Prémio da Crítica Espanhola, 1963), A Casa Verde (1967 – Prémio Nacional do Romance do Peru, Prémio da Crítica Espanhola, Prémio Rómulo Gallegos), Conversa na Catedral (1969), Pantaleão e as Visitadoras (1973), A Tia Júlia e o Escrevedor (1977), A Guerra do Fim do Mundo (1981; Prémio Ritz-Hemingway – 1985), História de Mayta (1984), Quem Matou Palomino Molero? (1986), O Falador (1987), Elogio da Madrasta (1988), Lituma dos Andes (Prémio Planeta, 1993), Como Peixe na Água (1993), Os Cadernos de Dom Rigoberto (1997), Cartas a Um Jovem Romancista (1997), A Festa do Chibo (2000) e Travessuras da Menina Má (2006).Foi galardoado com muitos dos mais destacados prémios literários internacionais, entre eles o Prémio PEN/Nabokov, o Prémio Cervantes, o Prémio Príncipe das Astúrias e o Prémio Grinzane Cavour.
in www.dquixote.pt

terça-feira, 10 de agosto de 2010

A Viagem do Elefante

Título: A Viagem do Elefante
Autor: José Saramago
Editora: Caminho

Sinopse: 

Em meados do século XVI o rei D. João III oferece a seu primo, o arquiduque Maximiliano da Áustria, genro do imperador Carlos V, um elefante indiano que há dois anos se encontra em Belém, vindo da Índia.
Do facto histórico que foi essa oferta não abundam os testemunhos. Mas há alguns. Com base nesses escassos elementos, e sobretudo com uma poderosa imaginação de ficcionista que já nos deu obras-primas como Memorial do Convento ou O Ano da Morte de Ricardo Reis, José Saramago coloca agora nas mãos dos leitores esta obra excepcional que é A Viagem do Elefante.
Neste livro, escrito em condições de saúde muito precárias não sabemos o que mais admirar - o estilo pessoal do autor exercido ao nível das suas melhores obras; uma combinação de personagens reais e inventadas que nos faz viver simultaneamente na realidade e na ficção; um olhar sobre a humanidade em que a ironia e o sarcasmo, marcas da lucidez implacável do autor, se combinam com a compaixão solidária com que o autor observa as fraquezas humanas.
Escrita dez anos após a atribuição do Prémio Nobel, A Viagem do Elefante mostra-nos um Saramago em todo o seu esplendor literário.

Opinião:
Quando foi lançada esta "Viagem do Elefante", chegou a ser anunciada como o último romance de Saramago. Ora, para quem escreve de forma tão sublime, a mão nunca encontrará descanso enquanto não pegar na pena (ou, nos nossos dias, encontrar um teclado) e imortalizar as palavras e a vida do seu dono. Então, Saramago continuou, escrevia no seu próprio espaço da Internet, presenteando-nos com o seu "Caderno" e ainda teve fôlego para atiçar algumas labaredas com "Caim", pequeno livro que caiu no país com o peso do próprio elefante Salomão.
Voltando à "Viagem": baseando-se num punhado de factos reais conhecidos sobre a oferenda de um elefante pelo nosso monarca de então ao Arquiduque da Áustria, o autor recria, com a mesma perfeição sarcástica de "O Memorial do Convento", os hábitos sociais do século XVI e o ambiente instável entre as várias monarquias. Cria um tratador de espírito aguçado e, entre outros, vários anónimos que entram em cena, recitam a sua linha magistral e retiram-se sob os nossos sinceros aplausos.
Comum a todos os seus romances, o narrador-personagem, enquanto acompanha os lentos passos da comitiva, tem tempo para cogitações sobre milagres, a relação portugueses-espanhóis, bois, reis, elefantes e os dizeres da língua portuguesa.
Romance com quilómetros de estrada e de escrita, que não se queda nas descrições,atirando-se para as ilações. A capacidade do autor de nos deslumbrar com a atenção a cada detalhe em todo o seu esplendor.
Aguardo, como muitos de vós, os ecos da sua escrita que ainda verão a luz do dia.

Bem haja, Saramago!

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Memória das Minhas Putas Tristes

Título: Memória das Minhas Putas Tristes
Autor: Gabriel García Márquez
Editora: Dom Quixote

Sinopse:
"Memória das Minhas Putas Tristes" conta a história de um velho jornalista de noventa anos que deseja festejar a sua longa existência de prostitutas, livros e crónicas com uma noite de amor com uma jovem virgem. Inspirado no romance "A Casa das Belas Adormecidas" do Nobel japonês Yasunari Kawabata, o consagrado escritor colombiano submerge-nos, num texto pleno de metáforas, nos amores e desamores de um solitário e sonhador ancião que nunca se deitou com uma mulher sem lhe pagar e nunca imaginou que encontraria assim o verdadeiro amor. Rosa Cabarcas, a dona de um prostíbulo, conduzi-lo-á à adolescente com quem aprenderá que para o amor não há tempo nem idade e que um velho pode morrer de amor em vez de velhice. A escrita incomparável de Gabriel García Márquez num romance que é ao mesmo tempo uma reflexão sobre a velhice e a celebração das alegrias da paixão.

Opinião:
Nada como um Nobel para nos chamar a atenção para um autor, mas no que diz respeito a  Gabriel García Márquez, nem o Nobel lhe valeu! Salvo seja... Quero eu dizer que, depois de uma tentativa honesta, mas frustrada, de ler o seu gigante "Viver Para Contá-la", vontade de voltar a ler este autor era coisa que não tinha... Até ao dia em que, numa das pequenas feiras do livro com que nos cruzamos quando menos esperamos, este "Memória da Minhas Putas Tristes" num apetecível formato de bolso me sorri e eis que não consegui resistir!
Comecei a lê-lo logo! E devo confessar que só não o terminei em algumas horas porque o tempo me tem sido sugado pelo trabalho. A escrita fluída e colorida, que me arrancou muitos sorrisos à conta das várias expressões menos 'politicamente correctas', dá cor à história de amor mais inverosímil que jamais li. Primeiro a descrença na tola ideia de um par formado por um homem com 90 anos anos e uma adolescente de 14, depois a simpatia pela situação e, finalmente, a alegria pela crença do amor em qualquer idade... Este senhor não nos poupa a nada, não nos deixa escapar a nenhum detalhe desta curta história que nos toca mesmo contra a nossa vontade. E é disto que os génios são feitos!

Uma história de amor, que ensina a olhar para a beleza do sentimento sem o pudor das convenções sociais. Deliciosa e em formato transportável! Como poderia não a recomendar?
Resta saber quando voltará a coragem para pegar no "Viver Para Contá-la"... A ver vamos!

domingo, 25 de outubro de 2009

Caim

Título: Caim
Autor: José Saramago
Editora: Caminho

Sinopse:
“A história dos homens é a história dos seus desentendimentos com deus, nem ele nos entende a nós , nem nós o entendemos a ele .”

Opinião:
Vou escrever esta opinião tentando deixar de lado todas as discussões que têm preenchido a actualidade. Vou tentar descrever o que o livro, e apenas o livro, me ofereceu!
Se têm lido as nossas opiniões, sabem que eu sou um grande e confesso apreciador de Saramago. O seu estilo agrada-me, preenche-me as medidas e entranha-se nos meus pensamentos. Sabia, então, o que me esperaria nas páginas de "Caim": o sarcasmo genial, as observações mordazes e a liberdade total em passar para o papel o que lhe vai pela alma.
Não me senti, minimamente, defraudado! O livro é mais curto do que o habitual, compensado, por outro lado, pelo grau de ironia por centímetro quadrado. As principais histórias do Antigo Testamento são focadas, juntando alguma transcrição literal do que está relatado na Bíblia com uma visão bem particular do papel de Deus. Quando cheguei ao final fechei o livro com um sorriso, pois é um belo culminar da raiva crescente de Caim.
Se não se sentirem melindrados pelo tema, irão certamente desfrutar de um excelente pedaço de literatura, quer concordem ou não com as críticas que se vão encontrando. Se existe a possibilidade de se sentirem ofendidos, aconselho a leitura de qualquer das formas (talvez deixando passar esta fase mais "quente"), apreciando a forma como Saramago vai expondo as suas ideias.

Para ler de mente aberta, sem sentir vergonha pelos sorrisos que vão aflorando ao longo da leitura!


sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Prémio Nobel da Literatura 2009 - Herta Müller

  O Prémio Nobel da Literatura deste ano foi entregue a Herta Müller, escritora e poetisa de origem romena.

  Nasceu a 17 de Agosto de 1953, na aldeia de Nitzkydorf, perto de Timisoara, na Roménia. Estudou alemão e literatura romena na sua terra natal e trabalhou depois como tradutora numa fábrica de Timisoara, antes de ser demitida das suas funções em 1979 por se ter recusado a colaborar com a polícia política de Nicolae Ceaucescu.
  Müller acabou por abandonar o seu país em 1987 rumo à Alemanha com o marido, o também escritor Richard Wagner. Para trás deixou uma longa luta perdida pela publicação dos seus trabalhos frontalmente críticos ao regime totalitário de Ceausescu, que acabaria por ser derrubado dois anos depois de Müller sair da Roménia.
  Em 1984 foi distinguida com o Prémio Aspekte e onze anos depois recebeu o prémio europeu de literatura Aristeion e foi eleita para a Academia Alemã para Língua e Poesia. Em 1998, recebeu o prémio irlandês IMPAC, no ano seguinte o Prémio Franz Kafka. Em 2003, foi galadoarda com o prémio Joseph Breitbach de literatura alemã, em 2004 com o prémio de literatura da Fundação Konrad Adenauer e, em 2006, com o Prémio Würth de literatura europeia.

  Na atribuição do Nóbel a Academia sueca sublinha que Herta Müller consegue, "com a densidade da sua poesia e a franqueza da sua prosa, retratar o universo dos desapossados".
adaptado de publico.pt
Livros editados em Portugal:


  Como os livros se encontram de momento esgotados podem ler um pequeno conto aqui (link retirado do blog Ler).

domingo, 6 de setembro de 2009

A Jangada de Pedra

Título: A Jangada de Pedra
Autor: José Saramago
Editora: Caminho

Sinopse:
«Em ""A Jangada de Pedra"" (...) o escritor recorre a um estratagema típico. Uma série de acontecimentos sobrenaturais culmina na separação da Península Ibérica que começa a vogar no Atlântico, inicialmente em direcção aos Açores. A situação criada por Saramago dá-lhe um sem-número de oportunidades para, no seu estilo muito pessoal, tecer comentários sobre as grandezas e pequenezas da vida, ironizar sobre as autoridades e os políticos e, talvez muito especialmente, com os actores dos jogos de poder na alta política. O engenho de Saramago está ao serviço da sabedoria.» (Real Academia Sueca, 8 de Outubro de 1998)

Opinião:
Mais um do nosso prémio Nobel...
Digo "mais um", mas não penso que seja apenas um romance a mais na sua vasta bibliografia... Este livro tem muito de único, mantendo o estilo próprio e a ironia típica de Saramago que, com os comentários deliciosos de sempre, vai colorindo a navegação da Península (ou ilha) Ibérica.
Poderá parecer à partida que o facto de a Ibéria começar a passear pelo Atlântico pouco ou nada trará de novo à vida dos seus povos. Mas pensem, para começar, nas politiquices envolvidas... Lá se vai a Europa, os Açores em rota de colisão, e se chegássemos à América?, e se Nova Iorque se tornar uma cidade do interior?, que governos nos apoiariam? e como será a colaboração entre políticos portugueses e a monarquia espanhola?
Quanto ao povo... Os turistas fogem, os autóctones vão tentando fugir, para além das migrações em massa para assistir aos Pirenéus rachados ou a Gibraltar a passar ao largo.
Os protagonistas foram reunidos por circunstâncias extraordinárias, aparentemente com pouco em comum, e onde se confundem as causas e os efeitos. O que unirá um cão sem cordas vocais, um novelo de lã azul e uma pedra lançada com força sobre-humana?
Todos estes sucessos são entrelaçados por metáforas (que, confesso, temo que me tenham escapado muitas), reparos sarcásticos e pequenos rebuçados linguísticos.
Espero ter conseguido o objectivo de aguçar o apetite a quem ler a minha opinião...

Será um bom livro para quem gosta do autor, e talvez não seja nada mau para quem quer tentar um pela primeira vez!

sábado, 5 de setembro de 2009

A Maior Flor do Mundo

Título: A Maior Flor do Mundo
Autor: José Saramago

Ilustrações: João Caetano
Editora: Caminho

Sinopse:

E se as histórias para crianças passassem a ser de leitura obrigatória para os adultos?
Seriam eles capazes de aprender realmente o que há tanto tempo têm andado a ensinar?

Porque as histórias que os livros nos contam não se ficam pelas páginas escritas.