Título: A Vida Antes do Tempo
Autora: Cátia Lopes dos Reis
Editora: Alfarroba
Sinopse:
O meu nome é Cátia, nasci na Charneca da Caparica, em Almada, em Fevereiro de 1985.
Sou enfermeira de profissão, trabalho na Urgência do Instituto Português
de Oncologia de Lisboa e sou pós-graduada em Gestão de Serviços de
Saúde pelo INDEG/ISCTE.
Em Setembro de 2010, após uma crise conjugal resolvida, eu e o meu
marido Vasco decidimos empreender uma nova etapa na nossa vida, a de
sermos pais. Mas o sonho tornou-se pesadelo, quando o nosso filho Afonso
nasceu de apenas 23 semanas e 6 dias de gestação.
Quando as perdas se sucedem, a perda de sonhos, da perfeição, da vida
como a conhecíamos até então, sobrevivemos juntos a 123 dias de
internamento em duas Unidades de Cuidados Intensivos de Neonatologia.
Acompanhada à distância por uma confidente muito especial, a Ilídia, mãe
de uma prematura que nasceu de 23 semanas e 5 dias, hoje com 14 anos de
idade, conto a nossa história. Como forma de tentar escapar a um surto
de loucura iminente, encontrei o meu escape, relatando sob a forma de um
diário o meu dia a dia, as dúvidas e os sentimentos de uma época em que
vivi algures entre a esperança e o desespero.
Ao longo deste doloroso percurso, existiram momentos-chave, de loucura,
de pânico, de esperança e de dormência. As questões da vida e da morte,
da prematuridade extrema, abaixo do limiar da viabilidade, os nossos
valores, as nossas crenças foram levados ao limite na derradeira decisão
da nossa vida, deixar partir o Afonso em paz.
Dois testemunhos de vida, semelhantes no seu percurso, diferentes no seu final.
Desafiando as estatísticas, as lógicas da ciência, lutando contra os
nossos próprios demónios e contra os das equipas de saúde, expiamos
assim a nossa culpa, a nossa dor e as nossas memórias. É o meu legado, o
legado de outra mãe prematura, o legado dos nossos filhos, para que
outras mães prematuras sintam que não estão sozinhas nesse sofrimento
atroz.
Opinião:
A temática de "A Vida Antes do Tempo" diz-me bastante, não em termos pessoais, mas profissionais. Assim, não terá sido de estranhar que, depois de tomar conhecimento deste livro, tenha sido assaltada por uma grande vontade de o ler. E foi o que fiz, assim que pude.
Este é um livro sobre dor. Cátia e Ilídia partilham as mesmas mágoas à distância de 300 quilómetros e com uma década entre situações muito semelhantes. A interrupção de um projecto tão importante na vida de qualquer ser humano, como é a maternidade/paternidade, de forma abrupta e rodeada de incertezas justifica este texto, e justificará muitos outros, uma vez que se trata de um sofrimento imensurável.
Ler "A Vida Antes do Tempo" trouxe-me luz sobre este tópico em numerosos aspectos. Tornou-se mais fácil compreender a posição destes pais, o lugar em que se encontram, tão difícil de aceder de outra forma. Mas também me mostrou como esse lugar, onde os pais parecem ficar reféns, lhes tolda a razão. Não raras vezes, durante o relato, a autora tece afirmações não fundamentadas e, muitas vezes, injustas, sobre os profissionais de saúde que acompanham o seu filho. Sem deixar de dar valor a um testemunho desta natureza, coisas como "só espero que não me infetem o miúdo" não deviam ser publicadas. A própria autora, como profissional de saúde, saberá melhor do que isso.
A leitura deste livro deve ser acompanhada de uma grande dose de coragem. A tristeza e frustração demonstradas persistentemente, que acredito relatarem fielmente o estado de espírito do casal, tornam-se inicialmente dolorosas, e mais tarde cansativas, o que para um leitor menos recetivo poderá desmotivar. No entanto, se há algum contacto com uma situação semelhante, esta será uma leitura que trará um novo olhar sobre a mesma, pelo que pode valer a pena.








